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domingo, dezembro 21, 2008

One Flew Over the Cuckoo's Nest de
Milos Forman (1975)
Género: Drama
Das poucas peças cinematográficas que este realizador nascido na antiga Checoslováquia nos presenteou até aos dias de hoje, esta é sem dúvida aquela mais marcante a todos os níveis.
R.P.McMurphy (Jack Nicholson) é um pequeno criminoso com um perfil comportamental bastante "peculiar" que ao ver-se obrigado a cumprir pena numa prisão de trabalhos forçados, ludibria as autoridades, fazendo passar-se por doente mental. É internado numa instituição para doentes desse tipo. Por lá, a rigidez sarcástica e autoritária imposta pela enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher) aos doentes daquela enfermaria, fazem com que McMurphy inicie uma guerra aberta contra a ideologia posta em prática pela mesma, despertando alma, coração e razão de todos, que até então ali viviam absortos, apáticos e "doentes", e dos quais se vai tornando um especial amigo.
A "libertação" que McMurphy conduz acaba por tomar contornos desproporcionais e Ratched também faz questão de ganhar a batalha despoletada contra o seu sistema.
Filme único, prova disso, são os 5 óscares que arrecadou por parte da Academia (melhor filme, melhor realização, melhor actor principal, melhor actriz principal e melhor argumento adaptado), feito esse só conseguido por duas vezes na história dos prémios máximos do cinema, em "Aconteceu Naquela Noite" (1934) e "Silêncio dos Inocentes" (1991).

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0073486/

Top50 IMDb: 8 (8.8/10)

WCGato: 9/10

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb de
Stanley Kubrick (1964)
Género: Comédia


Comédia negra hilariante, com assinatura de mais alto nível do grandioso Kubrick, este filme aborda a temática de eminente guerra nuclear entre as duas maiores potências mundiais, em pleno período de guerra Fria.
Um general psicótico americano, Jack Ripper, acha que os comunistas conspiram com o intuito de poluir os "fluidos corporais preciosos" dos americanos e lança a sua armada de bombardeiros B-52 contra alvos nucleares da U.R.S.S.

No Pentágono, presidente dos E.U.A., chefes de estado maior e o "ex"-nazi Dr. EstranhoAmor (um génio, caricato, sinistro, peculiar e especialista em armas) percebem que apesar de todos os esforços, vai ser impossível parar o ataque.

Peter Sellers, interpreta nesta sátira épica da história do cinema, nada mais nada menos que 3 papéis, tendo sido nomeado para o óscar desse ano, que acabou por perder para Rex
Harrison (gsdgsdfgseergsdfhhfdsh) em My Fair Lady, escolha no mínimo polémica depois de verem a prestação de ambos!

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0057012/

Top50 IMDb: 25 (8.7/10)

WCGato: 9/10

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Aproveitando as sugestões magníficas do nosso amoroso amigo Machines of God, deixo aqui a minha humilde visão sobre um dos filmes sugeridos.

Taxi Driver de Martin Scorsese (1976)
Género: Crime / Drama / Mistério


Taxi Driver, talvez o melhor filme de Martin Scorsese, retrata a progressiva deteoração mental de um ex-combatente na guerra do Vietname. Assaltado pelo mutismo e o isolamento progressivo, Travis Bickle (interpretado pelo, na altura novato, Robert De Niro) ocupa as suas longas noites de insónia trabalhando como taxista Nova-Iorquino.

Constatando a corrupção, os vícios e a degradação presentes na metróple assim que a noite se instala, Travis mergulha num pesadelo crescente, onde as suas perturbadoras experiências de guerra estão cada vez mais interligadas com a análise que faz à sociedade que assiste, todos os dias, despertar no crepúsculo. Como um subterfúgio de libertação mental. A realização confere um efeito hipnótico à filmagem, como se estivessemos a assistir a tudo através dos olhos de Travis, criando uma atmosfera densa e marcante. Os diálogos estão também muito bem orquestrados, vincados pelo carácter dos personagens. De certa forma, acabamos por ganhar simpatia a Travis, apesar de tudo encontramos uma certa veracidade na deturpação que este faz da realidade, como uma subtil crítica de fundo.

Nos meandros dos bairros, esquinas e guettos corruptos e decadentes, Travis acabará por encontrar Iris (Jodie Foster), uma prostituta, intrinsecamente ligada a esse mundo, vendo nela a esperança, a tábua de salvação da sociedade que ele quer redimir com as próprias mãos. Jogo psicológico puro num ambiente sombrio e nocturno, onde todo o opróbrio humano vem ao de cima, são os ingredientes fundamentais deste clássico de Scorsese. Que a guerra comece!

quinta-feira, dezembro 04, 2008


The Usual Suspects de Bryan Singer (1995)
Género: Crime, Drama, Thriller

Elenco de luxo, no melhor de Brian Singer, obrigatório ver! "Soberbo" do 1º ao último minuto.

(A review da peça, irá ser feita em local e datar a determinar, pelo nosso moderador destacado para o efeito)

terça-feira, novembro 25, 2008


Akahige de Akira Kurosawa (1965)
Género: Drama

A viagem deste post cinéfilo semanal (e desculpem o atraso) é até à decada de 60, a uma pequena localidade do Japão rural. Leva-nos à história de um jovem médico recém-licenciado, consumido pela prepotência, vaidade e individualismo, próprios da sua formação urbana centrada na patologia. Este, contra a sua vontade, é destacado para o hospital de uma localidade do interior do Japão, humilde e de parcos recursos.


Chegado ao hospital, fica sob responsabilidade do dr. Niide, conhecido por Barba Ruiva (Akahige) pela peculiar cor da sua barba. Este, quando o perscruta, apercebe-se de algo de misterioso no jovem médico e interessa-se por ele, apesar de todo o desprezo inicial. A partir daí, a narrativa vai evoluir centrando-se fundamentalmente na condição e sofrimento humanos, em várias pequenas e intrigantes histórias de vida de vários doentes e personagens que vão surgindo no hospital, retrato de vidas assentes numa miséria extrema. Existe um certo feeling Dostoievskiano ao longo da película. Akira Kurosawa conferiu ao filme um humanismo abrangente e tangível, romantizando o idealismo do sofrimento humano como uma causa preponderante para a doença e morte.

O jovem médico vai percorrendo todas estas histórias unindo-se cada vez mais ao sofrimento e miséria daquele povo, base de partida para uma profunda transformação interior. Resta saber se este humanismo o marcará de tal forma que abdique de todas as suas ambições, pessoais e materiais, para abraçar a verdadeira felicidade que há tão pouco acabou por descobrir - o amor infinito ao próximo. Um filme notável que especialmente todos os estudantes de medicina deveriam ver.

"The pain and loneliness of death frighten me. But Dr. Niide looks at it differently. He looks into their hearts as well as their bodies."

domingo, novembro 16, 2008

Notáveis da 7ª arte apresentam...

Inland Empire de David Lynch (2006)
Género: Mistério / Drama / Crime / Terror


Desta vez, trago-vos mais um filme de David Lynch, "Inland Empire". Este é o seu derradeiro filme. Totalmente filmado em câmara digital, este é o filme que Lynch sempre ambicionou fazer, sob um ponto de vista artístico. É, talvez, o filme mais bizarro do realizador, ultrapassando mesmo "Mulholland Drive". A sua mensagem e linha condutora parecem indecifráveis e constituem um dos maiores desafios à actual elite cultural cinematográfica. Na verdade, poderá mesmo suceder o filme não possuir um fio condutor ou uma explicação lógica global, por si mesmo.

Poder-se-á dizer que o filme é, nos seus momentos iniciais, uma narrativa que expõe a sua história de base - um "remake" de um filme polaco que nunca fora acabado, por certos eventos estranhos em seu redor que levaram à morte dos dois protagonistas. O restante, o grosso do filme, um autêntico pesadelo caótico parecendo surgir das trevas de uma mente esquizofrénica. A acção parece não obedecer a um princípio racional. Nikki, a heroina do filme, parece cada vez mais afundada numa maldição hipnótica e a sua realidade cada vez mais fundida com a da personagem que encarna no "remake" polaco, com as consequências tenebrosas que isso implica. Passado e futuro, realidade e ficção, são misturados num caos sucessivo de cenas aparentemente desconexas e variadas, que a levam a viver episódios do próprio filme polaco, do filme que encarna, e da sua realidade cada vez mais confusa e apoteótica, elicitando todos os seus demónios interiores. Muitos pequenos detalhes conspícuos relacionam as cenas umas com as outras. Diálogos estranhos, pernonagens estranhos e enigmáticos e ambientes surreais e perturbadores sucedem-se num tumulto caótico à medida que a intriga avança.


O segredo está em não procurar encontrar uma explicação lógica para todos os pormenores. O filme é pura e simplesmente um grande pesadelo, e que pesadelo! Todos os elementos do subconsciente perturbado da personagem emergem numa catarse de sentimentos, sejam eles de terror, raiva, medo, sofrimento ou contemplação. O filme passa por todos eles de forma exímia, muito graças ao talento da actriz Laura Dern, absolutamente versátil e eficaz na interpretação das sucessivas e variadas dimensões da sua personagem, tornando tudo esmagadoramente verdadeiro, apesar de estranho e impossível.

Ao nível da realização, a utilização de câmara digital conferiu a Lynch a liberdade e originalidade de utilizar maioritariamente planos pouco usuais. A focagem das personagens muito próxima da cara, no limite de focagem, torna tudo mais próximo e intenso, exponenciando o surrealismo do filme. Por outro lado, a portabilidade da câmara digital possibilitou o seguimento muito próximo de certos gestos aparentemente não importantes para as cenas, mas que aumentam a tensão do momento, como se lá estivéssemos, absortos nesses gestos banais como encher uma chávena de café, como um mecanismo de escape perante a estranheza de tudo o que se está a passar.


Obviamente que o filme não será para todos, tal como um quadro de Picasso não poderá ser perceptível por todos. Este é um filme que não obedece a regras, é pura e simplesmente um esgar de génio e liberdade artística. Como referiu Gustavo Marquês Van Prog "é bom saber ainda existirem realizadores que se preocupam em trazer algo de novo, de diferente". Mais que preso a uma simples história, este filme encarna a arte cinematográfica como uma pintura abstracta, base para uma experiência incalculável sob domínios e sentimentos superiores.

"Como vento a ecoar nos túneis da mente"

terça-feira, novembro 11, 2008

Clássicos da 7ª arte presents...

Stalker de Andrei Tarkovsky (1979)
Género: Aventura / Mistério / Drama / Ficção Científica


Este é um daqueles filmes raros, geniais, capazes de elicitar em nós sensações nunca antes experienciadas. Muitos apelidam Tarkovsky de profético, por este idealizar os cenários fantasmagóricos e decrépitos da zona em redor do desastre de Chernobyl, 10 anos após o filme. O filme centra a sua narrativa na "Zone", tal como seria apelidada a área consumida pelo desastre nuclear, uma zona inóspita nos confins da União Soviética, maldita pelo Homem, encerrada por arame farpado e dispositivos militares, onde parecem ocorrer fenómenos fora do alcance de uma explicação lógica, após a suposta queda de um meteorito.


Dentro de todo o mistério e horror que a "Zone" encerra, existe o "Stalker", aquele que atingiu, inexplicavelmente, o notável feito de regressar da área maldita, após nela ter entrado por diversas vezes - o único homem que a "Zone" parece querer poupar. Para este, a Zona é seu derradeiro local na Terra de paz interior, bem distante da miséria e sofrimento que o atinge na cidade onde vive - verdadeiro aforismo às condições sub-humanas vividas pelo povo russo. Apesar da sua decadência e aspecto sinistro, a Zona é o seu paraíso metafórico. Tarkovsky fora absolutamente brilhante em traduzir ao espectador, visualmente, o impacto interior que os dois locais lhe provocam. O propósito da vida do Stalker transformou-se em revelar a sua descoberta interior a outros homens, escolhidos por ele. Os que sente que estão preparados para o sentir. Esta não é apenas uma viagem no seu sentido literal estrito, física. É bem mais que isso. É uma autêntica jornada interior, reflexiva, um local interiormente idílico que serve de base à sua filosofia fascinante - a evolução da condição Humana.


Por todo o lado corre a crença que quem o acompanha na sua regular viagem parece conseguir realizar um desejo. Desta feita, a sua escolha recai em dois personagens intelectuais: um famoso escritor, cínico, que alega ter perdido toda a sua inspiração; e um físico, pragmático, que parece dar mais valor à moxila que carrega do que à viagem em si. Ao longo da trama vai-se atingindo o verdadeiro propósito que os levou a encetar esta perigosa viagem, através de sucessivas discussões verdadeiramente inteligentes entre dois intelectuais de áreas tão distintas, bem como, no final do filme, se estarão mentalmente preparados para uma decisão esmagadora que os iria mudar para sempre.


"Que acreditem! Que riam das suas paixões.
Porque o que consideram paixão,
Na realidade não é energia espiritual
Mas sim fricção entre a alma e o mundo externo
(...)
Quando o Homem nasce, é fraco e flexível
Quando morre, é duro e insensível
Quando uma árvore cresce, é tenra e pliável
Mas, quando seca e dura, morre
Dureza e força são os companheiros da morte.
A flexibilidade e a fraqueza são a frescura do ser.
Por isso, quem endurece, nunca vencerá."

"Sim, sou um piolho.
Nada fiz neste mundo, nem nada posso fazer.
Nem à minha mulher dei nada.
Não tenho amigos. (...)
Privaram-me de tudo lá, além do arame farpado.
Tudo o que tenho está aqui! Compreende?
Aqui na Zona!
A felicidade, a liberdade, a dignidade, tudo está aqui!"


Veredicto: 10/10

domingo, novembro 02, 2008

Clássicos da 7ª arte presents...

2001: Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick (1968)
Género: Ficção Científica/Thriller/Mistério/Aventura



Este épico da ficção científica, realizado maravilhosamente por Stanley Kubrick, acabou por se tornar uma das maiores lendas de sempre da história do cinema. Tomando por base a evolução do Homem, desde o evento inicial até a um futuro longínquo da exploração espacial, Kubrick apresenta as duas perspectivas da evolução temporal humana elicitando os seus pontos comuns.

A utilização de cenas lânguidas, fotográficas, que acabam por constituir verdadeiras metáforas visuais, tornam a experiência de visualização um constante acto reflexivo, reforçado ainda pelo uso recorrente de peças sinfónicas, de conotação sinistra, operática ou espectacular (Strauss). Por outro lado, Kubrick foi exemplar na recriação do vazio sonoro do espaço, bem como da respiração ressonante do astronauta no seu fato espacial, tornando as longas cenas no espaço asfixiantes e assustadoramente realistas. Tudo isto assume uma notabilidade exímia, sobretudo se pensarmos que o filme fora feito antes sequer do Homem pisar a Lua, e de ainda hoje se manter incrivelmente actual e, em alguns aspectos mesmo, surpreendente.



As cenas são meticulosamente orquestradas para transmitir mensagens de cariz filosófico, desde a dicotomia da inteligência humana e inteligência artificial (sendo o computador HAL um dos mais perturbadores personagens da inteligência artificial alguma vez feitos, sem pensar ainda no quão influente e marcante terá sido na história do cinema), a existência de civilizações extraterrestres e a problemática da influência superior no curso evolutivo humano.

Por todas estas razões, é fácil de perceber o quão substancial é esta película. Todos deveriam ter a oportunidade de admirá-la pelo menos uma vez na vida.

Veredicto: 10/10